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Thursday, September 20, 2012

CAPITULO II - CMM, mulheres e motovelocidade


COPA CMM DE MOTOVELOCIDADE

 

 O que dizer??? Há alguns anos atrás, quando fui mordida pelo bichinho da motovelocidade, motos speed e etc, não imaginava um dia poder entrar em pista, correr uma etapa, mesmo que uma única prova. Apenas pensava em melhorar performance, ter uma tocada mais segura, poder pilotar bem, muito bem; não apenas andar de moto.
 
Sonhava com isso das pistas, é verdade, mas eram sonhos, devaneios... pois sempre soube que pilotos se fazem desde a mais tenra idade e não agora, no meu caso! Porém, independente deste sonho, segui escrevendo, rodando por aí com minhas motinhos e ao longo do tempo, fazendo novas amizades, networking bem interessantes, desenvolvido através de meus artigos e sites de relacionamento como o Facebook.
 
 

Destes relacionamentos todos, de extrema importância, surgiram alguns fundamentais para o que veio a ocorrer recentemente. Conheci a Vanessa Daya, motociclista, pilota mesmo, apaixonada por motos e por tudo que as envolve. Estabelecemos uma parceria além da amizade e passados alguns anos, ela me envolveu em um projeto grandioso. Lançou a Categoria de Motovelocidade Feminina em Brasília, em maio passado e iniciou um trabalho de formiguinha convidando representantes de cada estado brasileiro para que estas fossem as propagadoras locais da ideia da motovelocidade feminina brasileira a fim de reunir as garotas apaixonadas por moto a participar de campeonatos. Uma ideia genial que encontrou eco aqui no Rio Grande do Sul com a Cris Noskoski. Se identificaram pelo objetivo e desejo de levar mais mulheres às pistas. Cris, por sua vez, havia fundado a Confraria da Mulher Motociclista, cujo projeto estava no fundo da gaveta esperando uma oportunidade para saltar.
 

 

Eis que a CMM- Confraria da Mulher Motociclista eclode, aproveitando a carona do Motocombatom, Cris lança um mega projeto, uma iniciativa até então nunca pensada em solo gaúcho: uma COPA FEMININA DE MOTOVELOCIDADE NO RS. Com sua capacidade de comunicação, aliada às amizades e relacionamentos muito efetivos no ambiente de duas rodas aqui no RS, ela começa dar corpo a um super evento sem precedentes.

Primeiro envolve as motociclistas do país na Confraria, a fim de que todas nós pudéssemos participar da ideia e apoiar, o que lhe rendeu inúmeras confrades de todos os lugares do Brasil, comprometidas com a ideia de algo grande, tanto que a presença maciça das mulheres motociclistas do país se dará em Laguna, ao final do ano junto ao motoencontro local, será o 1°Encontro da Confraria da Mulher Motociclista. Cris já contabiliza presença de mulheres do país todo em razão de estar à frente, ajudando inclusive em reservas de hotel, para estas mulheres de fibra. Foi aí que entrei. A pedido da minha amiga, parceira e sócia Vanessa Daya – Motocombatom,  fui surpreendida pela Cris Noskoski,  convidando-me para ser Diretora da CMM aqui na minha região (Serra Gaúcha) e consequentemente Pilota CMM!
 
 

Bem, lançada a CMM (Confraria) e com sucesso, Cris Noskoski retoma a Copa em voo solo, colocando-a em destaque junto ao Campeonato Gaúcho de Motovelocidade.  Suas tratativas com a direção do Campeonato, FGM e pilotas começam a tomar forma.  Chama as suas confrades para participar da Copa e a medida que as adesões se concretizam, já alinhava com as escolas de pilotagem do sul para que todas nós pudéssemos ser treinadas, exaustivamente dado o curto espaço de tempo que tínhamos entre o início do projeto e a etapa do Campeonato Gaúcho. Todas as escolas atenderam ao pedido da Cris e se disponibilizaram a ensinar, gratuitamente, as pilotas da Confraria da Mulher Motociclista. Ela sempre evidenciou a necessidade da pilotagem segura, pois queria um espetáculo lindo, sem ninguém se machucando. Paralelo a este cuidado com as suas pilotas, iniciou um trabalho (muito mais árduo) de conscientização da necessidade de investimento por parte de patrocinadores e da mídia especializada. Convocou e foi atendida por vários empresários tanto do ramo das duas rodas como por outros. Obteve sucesso mais uma vez. No decorrer do tempo, entre a organização do evento e sua realização, houveram contratempos e a Copa Feminina, ou melhor, a COPA CMM de MOTOVELOCIDADE deixa de ser uma 1° Etapa de Campeonato para ser uma Copa Festiva, onde pode contar com o apoio de todas as pilotos que mantiveram o espírito de campeonato fazendo que mesmo debaixo de chuva torrencial, a nossa participação fosse uma prova de fato.  Nesse ínterim, entra o Piloto e Instrutor Carlos Barcelos que apresenta à Cris Noskoski a primeira gaúcha confederada a disputar uma prova oficial: Cristina Rosito, que aos onze anos de idade, sagra-se pioneira no Motociclismo Gaúcho e Brasileiro. Resultado?
A nossa Cris convida a Cris Rosito para ser madrinha de nossa copa e emprestar seu nome ao evento e troféu!
Troféu Cristina Rosito.


Foram momentos de superação de todas, pois estávamos sob chuva torrencial com equipamento de pista seca, pneus para pista seca, motos de rua, sem tecnologia apropriada. Muitos pilotos profissionais abandonaram o autódromo diante das condições precárias da pista (ela não tem bom sistema de drenagem o que ocasiona vários pontos de alagamento), mas as Pilotas CMM permaneceram firmes no propósito; lógico que nenhuma de nós abusou de suas motos, pois ninguém queria “tomar um chão” como dizem aqui... mas fizemos o que mais gostamos, pilotamos a despeito de quem achou que nos fragilizaríamos e voltaríamos para casa correndo!  Quem apostou nisso, errou o pulo!!!! NENHUMA desistiu por medo ou qualquer outra razão.
 



Foi uma prova linda, razão de orgulho a qualquer um que lá estivesse; mesmo que não tenhamos acelerado como gostaríamos, concluímos uma etapa bárbara, a de realização pessoal de muitas de nós. E quem sabe, com continuidade??? Eu sou uma destas... Conquistei um primeiro lugar na minha categoria, 1000cc com a minha Vicky (Yamaha YZF R1) e quarto na classificação geral.  Espero que possamos continuar com estas experiências, algumas de nós se destacaram e com certeza serão alvo de investimento. Fica a dica...
 
 
Sabemos o quão difícil é estarmos em campeonatos, levarmos público, sermos prestigiados. Porém tudo precisa de um começo, tudo precisa de uma aposta e principalmente, de um desejo muito grande de realização. A COPA CMM foi esse marco.

Incrivelmente tive incentivo de pessoas mais distantes, pessoas que me conheceram recentemente e de outras que nunca me viram. Tentei buscar na cidade, entre as pessoas que conhecia, tanto na mídia local como em estabelecimentos nos quais sou cliente, mas não obtive resultados, não fui sequer recebida por algumas empresas da cidade (Bento Gonçalves) e algumas lojas de equipamento e acessórios não tiveram interesse em colaborar...

Lamentável, pois levaremos nossas famílias e amigos ao autódromo e pela novidade que se apresenta é certo que mesmo dentro de nossos equipamentos, ainda seremos glamourosas e femininas e  levaremos a mídia aos nossos boxes tal qual  ocorreu neste final de semana: Muitas entrevistas, fotos,  TV, Rádio, Revistas, Sites... Movimentamos muito o Autódromo de Santa Cruz do Sul. Quem acolheu a iniciativa da Cris Noskoski na COPA CMM de MOTOVELOCIDADE, saltou na frente, junto ao pódio como nós!

 

Estou feliz e agradecida a todos que transformaram meu sonho possível: a Cris Noskoski a fundadora da CMM e da COPA que oportunizou minha participação, os instrutores Carlos Barcelos e Leandro Fernandez Rad que tiveram toda a paciência do mundo comigo, minha equipe de apoio, Ramiro, Suzi e Giovani Soares  de Caxias do Sul, o patrocínio da Sul Motors de Porto Alegre  (WWW.sulmotors.com.br ), da RacerMotos de Caxias do Sul (WWW.racermotos.com.br)  e do Eduardo, além do apoio da oficina mecânica que se ocupou das trocas de pneus, a Motorbike (B.Gonçalves). Bastante feliz também pelas mensagens, felicitações de todos os amigos através do Facebook, emails, telefonemas e  etc.
Minha equipe: Ramiro, Suzi e Giovani Soares
 

                                         Carlos Barcelos - Piloto e Instrutor de Porto Alegre

Thursday, September 13, 2012

Como eu dizia... capítulos e mais capítulos....

 
COPA CMM de MOTOVELOCIDADE
 

 
Bem, como era de se esperar, eu vou contar um  pouquinho da Copa, na qual irei participar. A COPA CMM surgiu através da Confraria da Mulher Motociclista, fundada pela Cris Noskoski há alguns anos. No anseio de fazer algo pelo motociclismo feminino, ela resolveu tirar a CMM da gaveta e colocar para funcionar. Começou contatando as pilotas através da rede de relacionamento, o Facebook,  chamando-as a participar da Confraria, tal qual qualquer outro grupo se organiza. Na sua trajetória, há algum tempo, Cris iniciou em tracking days pelas pistas do Rio Grande do Sul  aumentando assim seu networking relacionado ao motociclismo esportivo. Além de também escrever sobre o assunto para alguns meios de comunicação, resolveu fazer algo mais aproveitando suas amizades e contatos.
Revelou-se uma excelente vendedora! Mobilizou algumas mulheres para o pontapé inicial e fazendo uso deste notável poder de persuasão,  colocou-as a treinar em escolas de pilotagem. Estou falando agora de mim, Ilaine Ceratti e a própria Cris. Começamos a treinar e em seguida mais mulheres vieram ao nosso encontro, formando um pequeno grupo onde os pilotos e instrutores se ocuparam de nos orientar e treinar e tirar vícios, melhorar performance e etc. A idéia de fazer uma copa com grid feminino já estava na cabeça da Cris. Daí para frente começaram os contatos com a Federação Gaucha de Motociclismo para que o evento fosse possível!
E será, no dia 16 de setembro, iremos correr a Primeira etapa da Copa CMM de Motovelocidade!
 
 
Estaremos em várias pilotas gaúchas e para incrementar o grid, foram convidadas algumas pilotas de outros estados do país. Para fechar com chave de ouro, Cris convidou as pilotas Cristina Rosito e Carla Abrahão para participarem do evento. Ambas foram pilotas de motovelocidade em um tempo que pouco se falava de mulher nestes esportes à motor. A primeira gaúcha, federada, a correr foi a Cristina Rosito, nos seus tenros 11 anos de idade. Carla Abrahão, por sua vez, fez história na famosa pista de Interlagos, sendo saudada pela plateia presente ao tirar seu capacete no grid, como única pilota presente. Esta história foi recentemente contada por mim  há dias atrás.



 
Muitas outras histórias virão, como venho dizendo, capítulos e mais capítulos de um assunto interminável, doravante: Motociclismo Feminino unindo as mulheres de todo o Brasil dentro de um único espírito: motovelocidade.
Abaixo apresento as meninas do grid gaúcho:
N°01 – Cris Noskoski (Passo Fundo)
N°02 – Julie Maioli (Bento Gonçalves)
N°03 – Gabi Racing (Vitória- ES)
N°04 – Márcia Reis (Erechim)
N°05 – Liz Cordova Moreira (Piraí do Sul- PR)
N°06 – Luana Farias (Passo Fundo)
N°07 – Regiane Rezende  (Estrela)
N°08 – Mayra de Souza ( Mato Grosso)
N°09 – Sabrina Fochesatto (Passo Fundo)
N°10 – Helencris da Silva (Caxias do Sul)

4ª etapa Campeonato GP Gaúcho de Motovelocidade -  Autódromo Internacional de Santa Cruz do Sul - Parque de Eventos

Ingressos: Padock (a venda antecipado na Valecross/Honda) - R$ 10,00 (antecipado) e no dia R$ 15,00

Arquibancadas: Grátis

Praça de Alimentação: Nos Boxes e na área de arquibancadas (Neco Lanches)

Horários 15/9/2012 – Sábado

14H45 – Prova 1 - Copa Mercosul e Super Bike – Prova 15 voltas.- Pódio no domingo

Horários 16/9/2012 – Domingo
Prova de Moto Velocidade Feminina nesta etapa

Na quarta etapa, em especial, haverá uma bateria festiva, organizada para integrantes da Confraria das Mulheres Motociclistas (CMM) com 10 pilotas convidadas, que se conhecem através do Facebook e dos encontros nas provas e trackdays. Apadrinhadas por Cristina Rositto, primeira mulher a competir de motocicleta no RS na década de 70. Esta bateria promete ser uma atração a parte ao reunir a confraria em uma disputa dentro das regras normais da Moto Velocidade. As organizadoras esperam a repercussão deste primeiro evento para avaliar se esta prova passará a ser uma atração anual da Confraria.
12H30 – Prova Cristina Rositto – Feminino Copa CMM – 10 voltas. Pódio
13H15 – Foto oficial dos pilotos reunidos – Abertura oficial.
13H40 – Prova 2 – Copa Mercosul e Super Bike – 15 voltas. Pódio
14H30 – Prova – Fórmula Turismo – 11 voltas. Pódio
Destaque na Fórmula Turismo 1000cc stock para Ilaine Ceratti (# 140 Rad Racing School/Real Makro Calçados/Auto 18/Natural Burguer) de Caxias do Sul, pilota feminina do GP Gaucho, na 3ª etapa chegou na frente de cinco competidores nacionais, em sua primeira prova, e pretende seguir na disputa do campeonato.


 
15H20 – Prova – 250 e 300 cc – 11 voltas. Pódio
16H10 – Prova – 125 cc – 11 voltas. Pódio

* O pódio será realizado ao final de cada bateria.
 
 
PILOTAS:


 


 
 
 
 
 
 
 




SUPERRRRRRRRRRR BEIJO.... Julie M.


Thursday, September 06, 2012

Motovelocidade e Mulheres - Capítulos sem fim!!!!





Carla Abrahão – Uma das pioneiras na motovelocidade brasileira
 


 Para contar a história da Carla, foram várias tentativas e não conseguia nada... Tive que chorar pra conseguir as linhas que vocês terão o prazer de desfrutar logo a seguir. Brincadeiras à parte, essa mulher não só é uma desbravadora e corajosa, como é também uma meiga e carinhosa amiga.

Quando perguntei para ela me contar timtim por timtim desde quando tudo começou ela confessou que detestava escrever e que seriam muitas linhas... “prefiro falar” disse ela... Porém, finalmente consegui que ela me contasse um pouco desta aventura que foi e ainda é o motociclismo na vida dela. Com vocês, Carla Abrahão, escrita por ela mesma, sim porque ela escreveu tudinho!!!!!
 

“ Terei  de voltar alguns anos, para contar essa maravilhosa historia de minha vida! Adoro motos desde os 11 anos de idade, hoje tenho 41, assim posso dizer que isso nasceu comigo... Ninguém em minha família incentivou...  Desde a primeira mobilette, que meu irmão mais velho Carlos Roque ganhou no Natal (e eu lógico, ”roubava” sempre que possível), até a primeira Yamaha DT 180, idem, eu sempre as “pegara emprestadas” sem que ele soubesse.  Porém seus amigos comentavam, não no intuito de me “dedurar”, mas para elogiar como eu andava bem.  Naquele tempo, alguns leitores devem se lembrar, não era obrigatório o uso de capacete e eu andava, infelizmente, sem capacete... Com cabelos cacheados loiros e compridos... Chamando a atenção por onde passasse... Pois isso deveria mudar, as meninas também deveriam ganhar motos, não só os meninos! Contudo passaram-se os anos e eu sempre com motos ‘emprestadas’, até que...  Tudo aconteceu! Aos 29 anos, quando conheci o XX ,o Wellington Melo Franco (“in memorian”) o qual me apresentou ao Braguinha (Luiz Carlos Braga) e ao Nenad (Nenad Djorjevic),começou em minha vida o capítulo Motovelocidade.
 
Braga teve a ideia de me colocar nas pistas, melhor ainda, correr os Campeonatos Paulista e Brasileiro de Motovelocidade!!! Nunca vou esquecer esse dia!...Estava no autódromo de Interlagos assistindo ao espetáculo do treino de pilotos da primeira “Escola de Pilotagem Século XXI”, quando ele me fez essa proposta... A expressão do meu rosto, de medo, entre assustada e ansiosa para ver no que isso iria dar!  Na hora aceitei e pensei em fazer Historia para as mulheres, na época era muito feminista e achava que deveria mostrar aos homens seus devidos lugares... Quanta ingenuidade da minha parte, hoje sei que meus pensamentos nem sempre foram corretos. Somos diferentes Mulheres e Homens, somos o complemento uns dos outros, não há melhor ou pior, cada um tem seu potencial e seu melhor e nós mulheres ainda estamos nos posicionando, melhorando a cada dia, enfrentando desafios, que nunca pedimos , simplesmente  eles aparecem e temos que enfrentá-los!
 
 

Bem... Vamos ao Autódromo de Interlagos em uma visão feminina: Eu não tinha macacão, botas, nada...! Nenhum equipamento de segurança apenas minha coragem para estar ali... “O” XX” me emprestou sua moto Honda XX 1100 cc, o Braga seu macacão, luvas e botas e entrei no autódromo!  Pensei em Deus!!!! Como ele pode dar uma sensação tão maravilhosa ao ser Humano? Sensação de liberdade, poder, prazer, medo, autoestima, felicidade, tudo ao mesmo tempo, nunca tinha chegado num velocímetro a 290 km/h... Medo, prazer, naquela moto que era um mito,... Sem freio traseiro, “XX”, meu eterno amigo, e  Nenad  ensinando-me  o traçado na histórica  pista de Ayrton Senna !
 


 
A História do Motociclismo Brasileiro estava mudando naquele momento, mas não me dera conta deste fato, era um enorme o prazer aprender com aqueles homens, que com sua paciência, tentavam me passar sua experiência e emoção! Mas acredito no que diz Dino Benzatti, no Programa” Momento Moto” da TV Bandeirantes: ”Seu melhor momento é você de moto!”... Se todas as mulheres soubessem o quanto uma mulher é cortejada e admirada em uma moto... Todas estariam pilotando!

Quando Braga teve essa ideia entrei na academia de ginástica, pois teria de competir com homens, somente homens, teria que fazer, na pista, o tempo deles para que eu pudesse competir...  “Pensei: tenho de ter condicionamento físico para isso e procurei a Academia Runner. Tive apoio na hora. Ótimo agora era só treinar bastante!... E foi o que eu fiz, treinei como uma louca, sabem o que aconteceu? Quando até o cabelo dói? Todos meus músculos doíam muito!

 


No final do dia fui à oficina mecânica, onde motos estavam sendo preparadas para o Campeonato Paulista de Motovelocidade e eu acompanhava tudo, aquele mundo totalmente masculino, tentando me passar por invisível, para estudar a todos, a personalidade de cada homem, prestava atenção nas conversas, pois na pista, eles seriam meus rivais... Precisava estudá-los, tentar alguma estratégia, e verifiquei na hora: Tudo era tão diferente se comparado às conversas femininas! Nunca fui um primor de “menina”, pois sempre gostei mais de brincar com meninos, essa história de brincar de casinha nunca foi minha cara. Quando meu marido (Eduardo Carità) me conheceu, andando na pista do autódromo de Interlagos, pensou que eu era lésbica... Imaginem! (risos) Nada contra... Mas não sou! O Campeonato começaria no dia seguinte... Sábado, quando todos me olharam e disseram:

- Carla porque você não corre com a gente amanhã?!  Quase tive um ataque de “menina”, mesmo!...
- Como assim? Não tenho moto, não treinei no autódromo, não tenho macacão, bota luva, protetor de coluna? 

Lembram quando mencionei que meu corpo doía todo? Fiquei chocada... Porém aceitei! Decidiram que eu iria competir com   uma Kawasaki ZX 750 cc que estivera parada há algum tempo. Pertencia ao Cássio, sócio de Braga,na época  proprietários da loja Moto Store, que gentilmente me emprestara sua moto.  Ao ser retirado o banco da moto, para surpresa de todos, um rato morto surgira...! Isso mesmo! Pensei em morte na certa... coisa de mulher!  Tudo acertado experimentei todo o equipamento necessário e claro... Não dormi à noite, achando que a morte seria certa, no dia seguinte!

















 
 
Treino no sábado: treinara, conseguindo tempo suficiente para poder participar da histórica corrida, tendo a  honra de ser a primeira mulher filiada à Confederação Brasileira e   Federação Paulista de  Motociclismo, motovelocidade categoria Força Livre, isso quer dizer acima de 600 cc ! Acreditem...! Não me dera conta deste detalhe que hoje marca minha historia!


 
 
 
Largada domingo: Autódromo lotado, emoção à flor da pele, grid de largada.  Mais uma vez Braga me orienta: -Aconteça o que acontecer, você não pode cair, pois todos vão prestar atenção em você!Tem que chegar inteira,... E outra coisa... Tire o capacete no grid de largada! Ao que respondi: - Não posso...!Todos iriam me olhar...! Braga disse: -Você consegue! Foi o que fiz... Tirara o capacete como se fora arrumar meus cabelos, e quando isso aconteceu a arquibancada veio a baixo em uma só voz:-Ohhhh! É UMA MULHER!  E o locutor Chicão, um querido, conhecido da época de Jet Ski e Moto cross, falava meu nome... Carla Abrahão... E todos repetiam! Nossa isso ficou gravado em meu coração!  Largada: acelerei tudo, mas não saia de minha mente a frase de Braga... ”Não cair, ok..! Isso significaria não correr muito, não arriscar demais, e ainda por cima,  na segunda volta vejo    um piloto tentando me ultrapassar, como  um louco, indo até a curva da reta oposta pela área suja. Sabia que  cairia ,então “tirei a mão”,permitindo sua ultrapassagem! Pensem em um homem constrangido! E ele ficou !E tudo veio à minha mente, neste universo masculino... Eles não pensam em preservação, simplesmente em ganhar!! Terminei em 7º entre 22 homens no geral...Vitória! Lembro-me como se fosse hoje, a arquibancada lotada, aclamando meu nome CARLA ABRAHÃO! Todos os pilotos , jogavam-me para cima, banho de champanhe, pena que na época não tínhamos celular com câmeras ou até mesmo a internet, isso meus caros leitores há 13 anos atrás, tão pouco tempo e não tínhamos toda tecnologia hoje disponível!!!

Há poucas fotos desta fase, além de minhas lembranças ,que com muita emoção, tento repassar aqui! Na segunda prova do Campeonato Paulista, a mesma história: sem treino, sem ajuda, sem patrocinador, moto sem manutenção, veio o tombo, muito feio, no qual quebrei meu tornozelo, rompi todos os ligamentos de meu pé esquerdo, fraturei a 3ª vértebra de minha coluna, cama por 4 meses, poucos amigos...  É nesta hora que se vê quem são seus verdadeiros amigos e além do mais perdera meu emprego! O acelerador travara no Bico de Pato e o chão foi certo, quebrando a alavanca de cambio com meu pé!!! A única alternativa fora abrir mão de um sonho, por todas as razões expostas, participar em um  grid somente de mulheres... Realidade que se tornara um sonho adormecido em 2.001!
 
 
FEDERACAO PAULISTA DE MOTOCICLISMO -    
POSICAO FINAL DO CAMPEONATO PAULISTA DE MOTOVELOCIDADE 2001
 1  61 NENAD DJORDJEVIC                         FORCA LIVRE     20 20 25 20  85 
 2  42 MARCELLO DE MIRANDA                      FORCA LIVRE     25 25  0 11  61
 3 666 WELITON MELO FRANCO                      FORCA LIVRE     16 13 16 13  58

 4  37 ROMULO SINHORELLI                        FORCA LIVRE     11 16 13 16  56

 5  97 RODRIGO DE BENEDICTIS                    FORCA LIVRE      0  0 20 25  45

 6   5 TULIO CESAR GALVAO                       FORCA LIVRE      0  5  9  9  23

 7  57 VICTOR HUGO SZPIGEL                      FORCA LIVRE      0  6  7  8  21

 8  60 MARCELO HANDEL MISTRORIGO                FORCA LIVRE      0 10  0 10  20

 9  49 LUIS CARLOS BRAGA                        FORCA LIVRE     13  0  0  0  13

10  53 RICARDO VASCONCELOS                      FORCA LIVRE      0  0  5  7  12

11  45 EDUARDO COSTA NETO                       FORCA LIVRE      0 11  0  0  11

12  77 MARCELLO BRASIL                          FORCA LIVRE      0  0 11  0  11

13  39 ALEXANDRE MELO MITZKUN                   FORCA LIVRE     10  0  0  0  10

14  33 RAFAEL FUNRI NEGRAO                      FORCA LIVRE      0  0 10  0  10

15  70 CARLA ABRAHAO                            FORCA LIVRE      9  0  0  0   9

16  25 SERGIO F. LAURENTYS                      FORCA LIVRE      0  9  0  0   9

17 151 VICTOR HUGO SZPIGEL                      FORCA LIVRE      8  0  0  0   8

18  87 THALES GARCIA CARMONA                    FORCA LIVRE      0  8  0  0   8

19  90 HUGO LACERDA FERREIRA                    FORCA LIVRE      0  0  8  0   8

20  55 ALEXANDRE JOSE ARTUZO                    FORCA LIVRE      0  7  0  0   7

21 111 RICARDO ALVES FERREIRA                   FORCA LIVRE      0  0  6  0   6

22  10 LAUSON VINICIUS ANTONUCCI                FORCA LIVRE      0  4  0  0   4

 Os anos se passaram, casei , me tornei uma empresária, mas ficou para sempre a lembrança da moto em minha vida, eu e meu marido Eduardo Carità (motociclista , não anda de carro , somente de moto, acho isso um pouco de mais, mas aceito). Compramos um sonho: a HORNET 600 cc da Honda, 0 Km, e infelizmente fomos roubados pouco depois, quando perdi o tesão pelas motos,  devido à uma arma apontada para minha cabeça, pirei!  Passaram-se longos 2 anos e falando em tecnologia , internet e redes sociais...agora em 2012,  ao colocar essas lembranças em  minha pagina, conheço Vanessa Daya,  Julie M. e todas integrantes do MOTO COM BATOM...  Nossa... Voltou tudo!  Recomeça a moto como um furacão em minha vida! Sou convidada por Vanessa Daya, uma moça adorável, persistente, que me lembra de quando comecei, para assistir e de alguma maneira participar do primeiro Grid de Motovelocidade somente com mulheres! Eu em uma quarta-feira normal sentada no meu escritório à mesa, como todos os dias estou e a corrida seria no final de semana.  Pensei: -... Acho que não irei... É em Brasília, estou em São Paulo há mais de 1.000 km!... Tá vou de avião...! De avião ou de carro?... Impossível, não posso fazer isso, tenho que ir de moto! Retomar o amor à moto, à estrada, à motovelocidade, pensar em algo que deixei para trás há tantos anos, como posso encarar essas mulheres sem ter o mesmo sentimento com que tudo começou? Já que ficara sem ele por alguns anos em minha vida!?

Agenda na mão, liguei ao José Carlos Taddeo que me vira no Autódromo de Interlagos.  Um amigo, que à época abrira portas na BMW motos, convidando-me para ser também a primeira mulher a relatar, em uma moto, matérias  sobre turismo  em revistas especializadas . E hoje, mais uma vez, ajudou-me agora na Kawasaki do Brasil, que prontamente entendeu tudo  de que eu necessitava e gentilmente  cedeu-me a  Versys 650 cc,para minha viagem no tempo rumo ao futuro . Novas ligações, desta vez ao Laertes da Revista Moto Adventure  e Alessandro do site www.motovelocidade.com.br, para poder relatar e compartilhar tudo com todos . Tudo certo, sexta feira dia 10-08-2012, vamos à concessionária  pegar a moto, junto meu eterno companheiro, sócio e amigo , que nas horas vagas é também o meu marido! Moto pronta revisada, mochila, equipamentos de segurança, abastecida, pneus calibrados! Estrada!!!
 
Saímos de São Paulo – SP as 18:00 . Haveria horário pior? Trânsito e stress total, tudo, porém iria ficando para trás, em meus pensamentos e sentimentos, voltando no tempo em todos os quilômetros rodados, dividindo a pilotagem da Kawasaki que me surpreendeu, pela economia, por ser confortável, tanto na pilotagem quanto na garupa,  pela segurança, estabilidade, no torque, rápida quando solicitada!!! 100% adorei a moto! E não falo isso pela parceria e sim a verdade .Essa moto é valente!!   Algo me chamou muito atenção na estrada, era o vento entre Uberaba e Goiânia, inclemente nesta época. Ao paramos para abastecer, colocamos os capacetes sobre a bomba de gasolina e acreditem: os capacetes saíram voando, literalmente voando! Na reta o vento era tanto que a sensação era de estarmos permanente em curva, tal a inclinação demandada para manter a moto na trajetória!!! Os pneus desgastaram-se acima do esperado por conta disso. Chegamos  à `Brasília no sábado as 16:00h , cansados, mas eu estava feliz demais, por estar lá, por conseguir, por ser determinada! Claro que como não estava mais acostumada a andar tanto de moto, o corpo doía todo!! Combinado com a Vanessa Daya  que  nos pegou  às 21:00h para que pudéssemos conhecer as outras pilotos..., Gabi Racing e Lu Haya , pois acreditem ,não conhecia ninguém pessoalmente a não ser pelo Facebook . Que poder tem a  rede social , hoje entendo muito bem o que isso significa! Fomos ao Kalabara Moto Bar e conheci pessoas incríveis, como Liz Cordova, uma figura , escorpiana encantadora, Alice desconfiada, mas guerreira, Fernanda , uma flor,  pequena grande mulher, Simone agitada, Fábio Varela o fotógrafo de plantão,além de vários maridos............entre fotos e petiscos registramos esse momento único e incrível: o reconhecimento da parte de todas, do respeito e admiração  ,  mútuo entre duas gerações de esportistas. Diferentemente do dia a dia em que  mulheres teimam em competir, de forma vã. Senti ali, uma laço maior, algo como ser realmente uma autêntica motociclista!!!




Em todos esses anos, não havia parado para pensar no que fizera e no que me tornara. Nossa !Que legal ser a primeira mulher! E fazer parte novamente de algo único, o primeiro grid de mulheres na motovelocidade!!! E melhor, a troca de informações, de como foram os treinos, as motos, a recuperação e a história de cada uma destas mulheres pilotos e eu prestava atenção a cada história! E um detalhe, todas são lindas mulheres bonitas, por fora e por dentro!! Mulheres fortes, que vieram para fazer história!  No passado presenciara diálogos machistas e agora via uma realidade diferente: uma postura mais digna, mais amigável, muito mais acolhedora. Domingo de manhã, às  7:00 horas, já estávamos prontos e lá fomos nos para o Autódromo Nelson Piquet . Deixo registrada minha indignação pelo abandono deste autódromo junto ao relato de todas as pilotos  sobre as rachaduras na pista  ao asfalto péssimo, enfim tudo muito largado! O que também me deixou triste foi a arquibancada vazia! Pude, porém constatar a mídia em peso, TV, jornais, revistas, rádio, fotógrafos ! Especial agradecimento à Facemotos,  a qual patrocinou a área VIP do Moto com Batom.  Antes da prova reunimo-nos em um círculo, para rezar independente de religião ou crença, para agradecer e pedir para que todas as pilotos competissem  sem acidentes, lembrando-me  do que  dissera Braga em minha   primeira vez:  -Não caiam!
 

 

À hora da largada, ao vê-las , senti  as lágrimas escorrerem, não acreditava que isso pudesse acontecer... Um sonho se realizando.... Uma mistura de querer estar ali na pista e outra de assistir.... Tudo se misturava e foi dada a largada e todas saíram acelerando, o arrepio... O frio na barriga, torcendo por cada uma! Foi uma verdadeira muvuca, tinha tanto repórter, mídia. E até aqui não havia tocado no assunto machismo ou até mesmo preconceito, mas na largada os homens tiveram uma “brilhante” idéia, colocar uma piloto, na verdade, um homem vestido de mulher, dizendo-se uma piloto americana que iria competir!!! Puro machismo!  Brincadeiras à parte, todas foram ótimas, sem quedas, um linda corrida, para ficar na historia do Motociclismo Brasileiro e eu exultante por  ter sido honrada com o convite para dar a  bandeirada de chegada.




 
Enfim um sonho se tornara realidade, todas em um clima de respeito e solidariedade mútuos que somente um verdadeiro motociclista tem!!  Parabéns a todas, espero que isso continue por muitos anos e que possamos ter em nossa Confederação uma divisão somente de mulheres, sem feminismo nisso. A volta na estrada, segunda feira, mais 1.250 km,(viemos por Goiânia e  Frutal) em um tranquilo  dia de sol maravilhoso, singramos com a Kawasaki 4 estados . Foi cansativo, mas a cada km tudo se revelava, voltando de onde havia se escondido, pensando e planejando em academia, e até quem sabe,  em voltar a competir com as meninas!!!!
E a próxima aventura será no Rio grande do Sul, teremos mais uma corrida somente de mulheres, Confraria das Mulheres Motociclistas, incrível e lá estarei novamente mais 2.300 km!  Conto na próxima edição!!!!  Dias 14,15,16 de setembro! "
 

Essa foi a história da Carla Abrahão, uma amiga, pilota, aventureira, sensível e linda mulher. Espero contar outras muitas histórias por aqui.

Em breve, como a Carla anunciou, teremos a Copa CMM junto ao GP Gaúcho no autódromo de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. Eu participarei do Grid, exclusivamente feminino com a moto número 02, a Vicky.

 
 

Será minha estréia num campeonato, como pilota de fato, como mais uma das mulheres que vem fazendo a história do Motociclismo Feminino do Brasil; levando apenas minha cara, coragem, contando com a ajuda de alguns amigos muito especiais, de Caxias do Sul, de Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Passaram-se muitos anos, mas os desafios serão os mesmos!!  Falarei mais logo a seguir!!!  Aguardem!!!!!

Beijos, Julie M.